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Anodização…ou pintura?

6 de janeiro de 2015

Fonte:http://www.revistaaluminio.com.br/recicla-inovacao/28/artigo228171-1.asp

Conheça as novas cores e texturas do tratamento de superfície e aprenda, com base em aspectos técnicos, a escolher entre as diferentes opções

O mercado nacional oferece hoje centenas de novas opções: cores especiais nos anodizados, imitação de aço inox, efeito madeira, tintas texturizadas, pigmentos ultrafoscos, novos tons de branco, outras propostas de polimento. No que depender estritamente de beleza, arquitetos e engenheiros podem ousar à vontade, porque hoje a indústria nacional é capaz de produzir tudo o que lá fora é moda no que diz respeito a anodização ou pintura, as duas formas de obter proteção e efeito decorativo para o perfil de alumínio. No entanto, não apenas de beleza ou preço deve ser feita essa escolha. Critérios técnicos, que você vai conhecer aqui, também devem pautar essa decisão e ajudá-lo a exigir do fabricante etapas que garantam a alta performance do acabamento.

A anodização é bem mais tradicional no Brasil, já que está integrada aos processos produtivos desde a década de 1960. A pintura chegou por aqui há cerca de 20 anos. Nos últimos anos, porém, a pintura ganhou mercado rapidamente, especialmente na construção civil, no Sul e Sudeste. Estima-se que, por aqui, a pintura tenha 60% desse mercado, impulsionado principalmente pelos empreendimentos residenciais. No Nordeste, o anodizado fosco natural é ainda prevalente. E, em âmbito nacional, eles se equiparam em percentuais médios – cerca de 47,5% cada, com outros 5% ainda trabalhando sem tratamento.

Seja com a pintura ou a anodização, o tratamento de superfície é indispensável. Um perfil do metal que não receba nenhum tratamento, depois de alguns meses assume aspecto escuro, manchado. Antes mesmo da função embelezadora, portanto, o acabamento tem como função garantir que o material permaneça íntegro, garantindo durabilidade.

divulgação/VM-CBA
Perfis anodizados em processo Multicolor, da VM-CBA: tecnologia italiana aprimorada no Brasil

Anodização
O tratamento por anodização é um processo químico, feito em banhos à base de ácidos e uso de corrente elétrica, que forma uma proteção transparente, isolante elétrica e resistente de óxido de alumínio. Por ser formado a partir dessa reação química do metal, a camada fica perenemente integrada ao perfil – diferentemente da pintura, que se trata de uma camada de depósito de polímero.

Essa característica traz uma das diferenças técnicas entre os tratamentos: a resistência a atritos acidentais. “O material anodizado tem maior resistência porque a proteção está incorporada à matriz metálica. Mas isso se refere unicamente a atritos involuntários, porque nenhum dos tratamentos deve proteger contra tentativas de danificar o material”, explica João Graciolli, engenheiro responsável pela área de tratamento de superfície e acabamento da VMCBA (Companhia Brasileira de Alumínio).

Para que o material resista à oxidação, o ambiente em que será aplicado o perfil também deve ser considerado. Para isso, o mercado oferece três diferentes espessuras de camada anódica, adequadas a ambientes com maior ou menor agressividade. Segundo a norma técnica que regulamenta a anodização (NBR 12609), a menos espessa aceita é a chamada classe A13, que tem de 11 a 15 mícrons de óxido, adequada para instalações em ambiente urbano ou rural. Já a classe A18 (16 a 20 microns) é ideal para o litoral, para suportar o poder corrosivo da maresia.

Ao aumentar a espessura da camada, por meio de banhos até 50% mais extensos, o processo altera o preço final. “O preço da anodização aumenta cerca de 20% a cada salto de categoria da camada anódica”, diz Claudio Martins, gerente comercial da Anobril, que oferece diferentes tipos de anodização e a pintura branca brilhante.

Outro aspecto a considerar é a durabilidade. “Se a construção quer durar 50 anos expondo o perfil aos raios solares intensamente, vale pensar em uma anodização de camada bem espessa ou mesmo feita com produtos resistentes aos raios ultravioleta. Na pintura, o poliéster também é muito estável, mas tem de escolher bem o pigmento e as boas marcas”, diz o engenheiro Jairo Lisboa, consultor de cobertura e estrutura metálica da Makal.

Embora o assunto seja ainda pouco pesquisado, um estudo conduzido por uma empresa americana, na Flórida, submeteu perfis com diferentes tratamentos, a um ambiente atmosférico considerado muito agressivo e os envelheceu por 25 anos. “Nessa pesquisa, sob as condições agressivas, a pintura com tinta convencional foi a que teve menos resistência, de 10 anos. O anodizado teve 15 anos. Depois desse período, começou uma leve degradação. Já a pintura com PVDF [um tipo especial de tinta, também contemplado pelas normas brasileiras], estava intacta ao fim do estudo”, conta Arimatéia Nonato, gerente de engenharia e desenvolvimento de produto da Belmetal.

A experiência nacional, porém, não registra desgaste do anodizado, nem mesmo a longo prazo. “No pintado, eu dou garantia de 12 anos, mas no anodizado posso dizer que a durabilidade é vitalícia”, avalia Guilherme Simoceli, da Olga Color.

Pré-tratamento adequado garante a adesão da tinta ao perfil, evitando possíveis desplacamentos e até o descolamento de uma folha de vidro fixada à esquadria

Cores do anodizado
Além do fosco natural e do fosco ácido, o preto e os tons de bronze já são também tradicionais. Novos no Brasil, os anodizados coloridos começam a ganhar espaço, especialmente em obras de alto padrão e na indústria moveleira. A VM-CBA investiu pesado na criação de uma nova planta que produzisse a linha Multicolor, tecnologia italiana, desenvolvida na empresa em parceria com a Italtecno. Só na nova unidade de anodização, foram R$ 50 milhões dos R$ 243 milhões do projeto todo de ampliação da oferta de serviços.

Para chegar nas oito novas cores da VMCBA (titânio, vinho, azul-marinho, azul-escuro, aço inox, cinza-escuro, verde e verde-amarelado), há um rígido controle de processos, especialmente de temperatura e químicos. Isso porque, para obter a coloração especial do anodizado, há acréscimo de uma etapa química, após a anodização, dedicada a modificar a estrutura do fundo dos poros da camada de óxido, uma alteração da microestrutura que permite a reflexão diferente dos raios de cores.

Setor de tratamento de superfície quer criar, este ano, selo de qualidade que mostra quais empresas e produtos atendem às normas e respeitam o meio ambiente

A Prodec, uma das quatro maiores empresas de tratamento de superfície do país, também tem seis novas cores de anodizado – como verde, inox, iridium e titanium. O sistema de obtenção segue a mesma lógica de microgenia dos poros da camada anódica, mas empresas têm diferentes controles de processos, segredos industriais e, claro, resultados.

Para fins arquitetônicos, a escolha pelo colorido ainda não é tão simples. Primeiro porque, numa escala simplista de custos entre os tratamentos disponíveis hoje, o anodizado colorido toma o topo da cadeia. “A precificação acompanha a lógica da sofisticação e embute não apenas toda a tecnologia, mas também o conhecimento e o conceito que o produto carrega”, analisa Graciolli. Colorir perfis com cores exclusivas pode custar até seis vezes mais do que uma anodização simples.

A anodização pode ser acompanhada de vários efeitos estéticos, como o jateado, escovado, lixado ou polido – todos esses realizados antes do início do processo de anodização, em máquinas ou, em algumas empresas, em processos manuais, como no polimento.

O jateamento, feito com bombardeamento de microesferas de aço, dá um aspecto aveludado fosco. Como a preferência nacional, no caso da indústria moveleira, é um efeito leve, o jateamento não esconde eventuais marcas de extrusão. “Às vezes, ele pode até revelar mais as marcas em vez de suavizá-las. Já o escovado e o polido conseguem minimizar os defeitos de extrusão”, explica Graciolli. Outra possibilidade é o fosqueamento ácido, acabamento com resultado próximo à homogeneidade do jateado, produzido em um banho.

divulgação/VM-CBA
Nova planta da VM -CBA: área enclausurada preserva qualidade da pintura

Pintura
Quando o assunto é pintura, o branco brilhante reina absoluto: a cor corresponde a cerca de 85% do mercado de pintura, segundo estimativas de profissionais do setor. Uma das explicações para essa hegemonia estaria na praticidade do branco. “Os arquitetos dizem que branco combina com tudo”, conta Antônio Magalhães de Almeida, técnico da Prodec. “Há muitos profissionais que são muito seguros para ousar nas cores. Outros ainda estão amadurecendo esse olhar e preferem não arriscar”, avalia Graciolli, da VM-CBA.

Já Simoceli, da Olga Color, acredita que se dependesse apenas dos arquitetos, o país já seria mais colorido. “Nós aqui temos cerca de 250 cores. Os arquitetos visitam e adoram, as construtoras é que barram, pelo custo. A imitação de madeira, por exemplo, temos há 15 anos, mas agora é que está pegando”, diz. Segundo Simocelli, da pintura branca à mais sofisticada, o tratamento pode custar até seis vezes mais.

A Prodec também trabalha com cinco tons de madeira, com diferentes veias, e produzidos com sistema de transfer. Nele, peças já pintadas em cor similar à madeira são ensacadas a vácuo em uma película plástica que contém tintas imitando as ranhuras da madeira; ao expor peças ao forno, a tinta é transferida para o perfil. “Residências de alto padrão estão aceitando muito bem essa nova proposta, especialmente no litoral”, diz Magalhães, da Prodec.

A VM-CBA trabalha agora também com cores especiais na pintura: um catálogo de 176 opções da espanhola Adapta, exclusivas no Brasil, inspiradas em diferentes cenários da natureza, como o estelar ou o vulcânico, além de outras da holandesa AkzoNobel e da americana Valspar. O resultado são cores com texturas, grânulos, com efeitos de pigmentação dupla ou mesmo ultrafoscas.

Convencional ou com pigmentos luxuosos, a boa pintura é a que tem um bem-controlado pré-tratamento, seguindo as regras da NBR 14125. É ele que garante aderência da tinta ao perfil ao criar, em um banho químico, uma camada de menos de um mícron, de fosfato crômico ou óxido de cromo (ou de produtos novos, livres de cromo), que dá ancoragem à tinta. “Com o pré-tratamento correto, ainda que haja microfissuras, não há oxidação. Sem isso, a umidade é capaz de penetrar, o alumínio oxida por baixo da película de tinta, que se solta depois de cerca de dois anos”, diz Magalhães, da Prodec.

Além de revelar um pré-tratamento malfeito, irregular, o desplacamento pode ter sérias consequências. “Nos casos em que o vidro é colado diretamente no perfil da esquadria, com silicone, se a pintura não for feita com pré-tratamento correto, o vidro pode destacar e cair”, conta Graciolli, da VM-CBA.

Por isso, nas obras comerciais, de fachada, há quem defenda a obrigatoriedade do uso do anodizado. “Nesse tipo de obra, a anodização é necessariamente escolhida, por uma razão técnica, já que os vidros são colados nos perfis e a anodização traz mais resistência mecânica”, diz André Colletti, gerente de marketing de extrusão da Alcoa América Latina e Caribe.

Após o pré-tratamento, as peças vão para a pintura eletrostática propriamente. Pistolas ou discos, dependendo do sistema fabril, pulverizam a tinta em pó, que sai eletrizada pelo disparador e é atraída para a peça em proporções uniformes, já que o perfil, por sua vez, está aterrado, com carga contrária à da tinta.

Na nova planta da VM-CBA, além de haver duas cabines, o que permite que haja troca sequencial de cores da pintura, com sete minutos de intervalo, uma curiosidade: toda a pintura acontece em uma em área enclausurada, em que foi implantada tecnologia semelhante à que há na mais recente fábrica da Audi para pintura de carrocerias. O sistema de climatização filtra e purifica o ar que é injetado na cabine por dutos, gerando uma pressão positiva que cria uma barreira mecânica de entrada de poeira, para que essa não se misture à tinta depositada nos perfis. Soma-se a isso um forno infravermelho que faz a pré-fusão do poliéster, para que, ao chegar na cura, diante da turbulência de ar, partículas da tinta em pó não se desprendam, sujando o forno que receberá peças de cores variadas.

Depois da polimerização (a fusão da tinta), a peça esfria e já está pronta. Diz a norma que a pintura deve ter espessura mínima de 60 microns. Em razão de a camada de poliéster ser bem mais espessa que proteção da anodização, a pintura tem a vantagem de esconder mais os defeitos de extrusão.

Por outro lado, não deixa ver o alumínio o que, para determinado perfil de consumidor, é uma desvantagem. “Pintado, você não tem certeza de que material o perfil é feito. No anodizado, não resta dúvida de que é alumínio. E muita gente escolhe o anodizado porque quer ver o alumínio, que traz um ar de sofisticação”, diz Claudio Martins, da Anobril.

Certificação
Apesar de o tratamento de superfícies já contar com mais normas técnicas que qualquer outra área do alumínio, o setor hoje busca uma forma de mostrar ao mercado quem são as empresas que, de fato, seguem a regulamentação e oferecem produtos corretos. Para isso, a comissão técnica da Associação Brasileira de Tratamento de Superfícies (ABTS) hoje procura criar o Selo de Qualidade de Tratamento de Superfícies. “A ideia é alinhar as empresas no nível de qualidade aceitável, para que não haja mais alguém não atendendo às normas, oferecendo camadas anódicas incorretas ou um pré-tratamento ruim e não tratando seus resíduos industriais”, diz Adeval Meneghesso, coordenador da comissão.

Para equalizar procedimentos e inibir a atuação de quem não segue a norma, a comissão da entidade vai contratar um laboratório acreditado pelo Inmetro, que emitirá um laudo sobre os processos e serviços, por meio de auditoria na empresa, análise de amostras recolhidas e de como faz o tratamento de resíduos. “A mentalidade do empresário, na maioria dos casos, é ainda de que o tratamento de resíduos representa apenas custo, quando, na verdade, deve ser visto como parte do processo de produção. E quem se ele se adequa, certamente ganha mercado”, diz Meneghesso.

Com a criação do selo, esperada ainda para este ano, a comissão espera que as contratantes, ao escolher a empresa de tratamento, comecem a exigir essa certificação. “Nos EUA, o selo não é compulsório ou obrigatório, mas o cliente regula o mercado, porque não compra sem o selo. Iniciativas assim estimulam que o empresário amadureça”, diz Graciolli, que também coordena o comitê técnico de tratamento de superfície de alumínio da Associação Brasileira do Alumínio (Abal).

Com o selo e mais informações à disposição, não faltará estímulo para que essa compra seja, cada vez mais, pautada em qualidade.